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Homem de ação

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por Neusa Andrade

Homem de pouco estudo, simples e humilde, Lázaro César Planzo Sandes, 43 anos, tem dado exemplo de determinação e coragem. Para manter o projeto educativo “Ler na Praça”, biblioteca pública itinerante, ele não mede esforços nem sacrifícios. Já fez até greve de fome para sensibilizar os governantes e a sociedade, sobre a importância da educação. Também já promoveu várias exposições e distribuições de livros nas praias, praças e pontos de ônibus de Salvador.

O projeto criado por esse soteropolitano de origem italiana, conhecido nas redondezas do bairro de Brotas pelo apelido de “Lau”, funciona em uma pequena garagem de um imóvel na rua Teixeira Barros e consta de livros, revistas, almanaques, dicionários, atlas geográficos, catálogos e fitas de vídeos empilhados em todos os cantos e direções. O espaço dispõe de carteira e cadeiras, mapas, recortes de jornais e logo na entrada pode-se ler o aviso “Silêncio”.

Filho de um mestre de obras e de uma quitandeira, viveu uma infância pobre com mais cinco irmãos (duas mulheres e três homens). O gosto pela leitura começou bem cedo. Para recordar esse tempo, Lau colocou na parede da “biblioteca”, como é chamada por alguns freqüentadores do projeto, uma foto dele, aos 12 anos, lendo um dos volumes de uma das mais importantes fontes de pesquisas da época, a Enciclopédia Barsa.

Começou a trabalhar ainda adolescente. Com 13 anos, ajudava a mãe na quitanda gente4.jpgentregando “quentinhas” de casa em casa e vendendo cuscuz como ambulante. O trabalho não lhe impediu de aproveitar a adolescência, brincando nas ruas do bairro de pega-pega, de armar cabana e vez por outra corria com os irmãos e amigos para os quintais da vizinhança à procura de manga, jenipapo, goiaba e cajá para fazer geladinho.

Lázaro participou do grupo de escoteiros liderado pelo mestre Valdemar Marques, homem de bom coração, caridoso e altruísta, também morador do bairro. “Valdemar não media esforços para ajudar a todas as pessoas que o procuravam. Conscientizava os integrantes do grupo para que praticassem uma boa ação sem olhar a quem, respeitando e valorizando o ser humano”, disse Lau.

Com a morte da mãe e para ajudar o pai no sustento da família, Sandes assumiu a direção da quitanda, mais tarde abriu um pequeno restaurante e depois uma pizzaria. Para concluir o 2º grau, Lázaro teve que estudar à noite no Colégio Luis Viana. Envolvido com gastronomia desde criança, surgiu a possibilidade de aumentar os negócios na área, só que desta vez fora do Estado, indo se estabelecer em Eldorado dos Carajás, no Pará e depois em Manaus, Amazonas. Os negócios não prosperaram. Encerrou as atividades e retornou para Salvador. Casou-se com Maria Rosália Silva, com quem tem dois filhos, Taio Sandes Silva e Eros Sandes Silva.

Aparentando estar em bom estado físico, ele acorda diariamente às 4h da manhã para fazer um percurso de 10km, correndo na orla, no Dique ou no Parque da Cidade. “Faço o possível para fugir da rotina”, diz Lau sorrindo. Aos domingos não dispensa o “baba” no campinho do Conjunto Santa Bárbara ou na Praia de Piatã. Ubirajara Santana, amigo e companheiro de infância e colaborador do projeto, diz em tom de brincadeira: “Lau tem tanta intimidade com a bola quanto tem com os livros”.

Lázaro é pessoa inteligente, carismática e bem humorada. Ele fala de política, de inflação, futebol, tecnologia e principalmente de educação, sua maior preocupação. Possuidor de memória privilegiada, ele pode informar em segundos a existência de qualquer livro e em qual fileira da “biblioteca” este se encontra. Sem demonstrar qualquer constrangimento, diz ainda não se sentir frustrado por não ter freqüentado uma faculdade. “A experiência de vida e os conhecimentos adquiridos através dos livros me tornam apto a falar sobre qualquer assunto”, acrescentou ele. A vida de Lau se transformou quando ele decidiu abdicar do comércio para se dedicar exclusivamente à educação, é o que explica a esposa Rosália.

Com tristeza, Lau diz que se sente agredido em saber que o índice de analfabetismo é crescente no país e os poderes públicos nada fazem para dizimar esse mal. Contrariando o provérbio popular que diz: “Uma andorinha só não faz verão”, ele afirma que está fazendo a sua parte. “O projeto Ler na Praça foi criado para recuperar a dignidade e a auto estima do povo que precisa de conhecimento e de informação”, esclareceu Lázaro. Agitar as estruturas da educação para dar uma vida digna e justa a quem precisa, é o objetivo deste homem guerreiro e empreendedor.

“O ser humano deve sempre persistir no objetivo que almeja mesmo que as oportunidades não estejam a favor”, esclarece Sandes, se referindo as dificuldades que vem enfrentando para manter o projeto. Para que este tivesse algumas das reivindicações atendidas, ele passou 21 dias fazendo “greve de fome”, até que a Prefeitura cedeu uma kombi, para que nos finais de semana o transporte de livros fosse feito, para a criação das bibliotecas nas comunidade de Cajazeiras X e Canabrava.

Lázaro acredita que “a educação recebida dos pais e os ideais defendidos pelo saudoso mestre Valdemar contribuíram para que ele se dedicasse a ajudar o próximo, praticando uma boa ação”. Com o apoio recebido da esposa Rosalia, que continua no comércio de alimentos, vendendo “quentinhas”, Lau sente-se gratificado com o trabalho que vem realizando e diz que “enquanto vida tiver vai trabalhar para ver o projeto decolar”.

Para pagar as despesas com o projeto ele utiliza o dinheiro que recebe do aluguel de dois imóveis. Não se envaidece com as diversas matérias jornalísticas publicadas sobre a sua pessoa e sobre o projeto. Não ganha dinheiro com o que faz, nem espera fazer fortuna. A maior riqueza que pode desejar e ver a ampliação do projeto, visando acabar com o analfabetismo e a falta de informação.
(junho de 2005)

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3 Respostas

  1. sou moradora de Brotas e ex colega de Lazaro sempre admirei o trabalho e esforço dedicado a este projeto, sou bibliotecaria e pedagoga, gostaria de saber se posso ajudar de alguma forma? Responda-me

  2. Sou moradora do bairro de Brotas, sempre admirei o trabalho de Lau e gostaria de saber se posso fazer alguma coisa para ajuda-lo na realização do seu projeto.Sou formada em biblioteconomia e pedagogia

    Um grande abraço.

  3. Adorei a sua iniciativa, é muito triste ver que em um país com tantas riquezas como o nosso, existem milhares de pessoas que não sabem ler e muitas outras que sabem não dão a devida importância que a leitura merece, o que essas pessoas não sabem é que a leitura é o maior instrumento de transformação social.Parabéns Sr. Lau, gostaria muito de conhecer esse projeto.
    Abraços!
    Vânia Sandes

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