Projetos que não saem do papel e aulas só para preencher carga horária.
por Vinícius Muniz
No papel, segundo o portal IdBrasil (http://www.idbrasil.gov.br/), inclusão digital “passa pelo fato do cidadão não ser cobrado pelo serviço na hora que vai usá-lo, pois o acesso à informação deve ser um direito de todo cidadão brasileiro, como é o acesso aos serviços de saúde e de educação. O fato de se ter ou não dinheiro não pode ser um obstáculo”, principalmente falando-se da população de baixa renda, que é a que tem menos acesso a recursos tecnológicos. Mas, na prática, a coisa funciona de uma forma completamente diferente. Os colégios estaduais e municipais de Salvador são um grande exemplo disso. No bairro de Brotas, os alunos sequer têm salas de informática em algumas escolas. Como preparar esses jovens e crianças para um mundo em que a tecnologia reina e é um aspecto totalmente necessário? É essa a pergunta que fica no ar entrando nos colégios tomados de mato, com salas destruídas e sem cadeiras, com parte da direção relapsa com o alunado e principalmente sem recursos básicos para uma educação de qualidade.
Falta de condições e estrutura
Alunos do Colégio Estadual Góes Calmon reclamam da precária estrutura física do colégio e da falta de professores. A aluna Aline Cerqueira, de 16 anos, fala que falta ânimo para ir à escola, porque não tem nenhum recurso que a atraia para dentro da sala de aula. “Aulas de informática seriam maravilhosas para nós, porque muitos não têm computador em casa e dependem dos amigos ou de lan houses para ter acesso à internet. Mas isso é uma coisa muito difícil de acontecer por agora”, diz a aluna que cursa o 2º ano do ensino médio e estuda há três anos na escola.
A vice-diretora da instituição, Alessandra Magalhães, fala triste da evasão escolar. No ano passado, a escola tinha 450 alunos a mais, hoje são 355. Segundo ela, eles deixaram o colégio pelo fato de o projeto criado pelo governo, o de tempo integral, não superar as expectativas dos alunos, ou seja, os prometidos projetos culturais (dança, teatro, capoeira e etc.), reforço escolar, aulas de informática e as tentativas de melhorar o desempenho dos alunos foram substituídos pela falta de professores e o excesso de tempo ocioso, causando assim altos índices de drogas e sexo no colégio.
A coordenadora pedagógica, Denise Pereira de Miranda, explicou que o projeto tinha a intenção de manter os alunos com as matérias básicas pela manhã e com atividades extras pela tarde, atividades essas escolhidas pelo próprio estudante. Mas, devido à má formação dos professores e falta de preparação da escola em todos os sentidos o projeto não foi a diante. “Projetos de inclusão digital são atividades que estão na grade escolar, mas a escola não tem o apoio nem recursos da Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC) para desenvolver essas atividades”, conta ela.
Denise, que já está para se aposentar, fala que a má distribuição das verbas torna algumas escolas estaduais melhores que as outras. Cita como exemplo os colégios Manoel Novaes e Thales de Azevedo, que são considerados os melhores em termos de ensino e estrutura, e fala que se não estivesse prestes a se aposentar abandonava o Góes Calmon por não ter nenhuma condição de trabalho favorável a ela e aos alunos. Essa falta de condição fica evidente andando pelos corredores cheios de grade da instituição que tinha tudo para ser uma referência de estrutura física e educacional.
Sem informática, sem professores
O Colégio Estadual Manoel Vitorino é outro que não possui a tão sonhada pelos alunos, sala de informática. Segundo a coordenadora da escola, Raquel Soares, os alunos mais velhos (da 5ª à 8ª série) são os que mais cobram a falta dessa atividade e questionam o porquê de eles ainda não terem computadores em uma sala e não terem essa atividade dentro do currículo escolar, sendo que as salas da diretoria, coordenação, entre outras, têm microcomputadores.
Fica claro como a realidade de alguns dos colégios públicos soteropolitanos é precária em certos pontos, sendo que muitas pessoas não têm noção do problema. Além de às vezes não terem a mínima estrutura organizacional por parte de alguns diretores e/ou funcionários, em sua maioria por falta de interesse de alguns deles, os alunos ainda sofrem com a vontade de ter aula. E por mais chato que isso pareça, esse sofrimento às vezes só aumenta.
Caminhando pelos corredores, se vê meninos e meninas fardados fora da sala de aula, sentados no chão (e muitas vezes deitados) por cima dos cadernos que deveriam estar recheados de conteúdo, sem ter aula. Será que esses professores que não vão a escola não pensam que muitos querem alguma coisa para o seu futuro e nem isso os faz ter motivação de educar e criar bons profissionais? Essas e muitas outras interrogações são as que não saem da cabeça da aluna Kellyanne Rocha, estudante da 8ª série, o último ano do Manoel Vitorino. “Saio de casa, com vontade de estudar e quando chego no colégio e vejo que o professor não veio, fico chateada e com desejo de ter dinheiro para poder pagar um colégio que seja bom e tenha aula”, diz indignada a menina de apenas 14 anos.
No Colégio Estadual Luís Viana, que é um dos poucos em Brotas a terem aulas de informática, os alunos do 3º ano do ensino médio, Juan Silva e Cláudia dos Santos reclamam que as aulas de informática são o mesmo que nada. “A professora coloca a gente pra desenhar no Paint e fazer textos bobos no WordPad, coisa de menino de primário mesmo! Eu e ela já fizemos cursos avançados em escolas de informática e sabemos que computação não se resume somente a isso”, diz Juan com um tom de deboche.
Perguntados de como eles acessam a internet, já que no colégio não existe esse tipo de atividade, eles falam que vão a Lan Houses ou a casa de amigos para acessarem o MSN Messenger e o mais famoso site de relacionamentos, o Orkut, já que não têm computador em casa. Outra forma tecnológica que eles têm para se comunicarem com os amigos é através de Torpedos SMS no celular, tornando assim a distância no tempo das férias menor e a troca de informações mais rápida.
É assim que a educação pública na Bahia se mostra na maioria dos casos, ótima no papel e péssima na prática. Assim os anos vão passando e jovens deixam de ter uma educação de qualidade e uma boa formação para o futuro que é sempre exigente e favorável aos que tem maior conhecimento de todos os assuntos, e a informática está inclusa nesse universo.
(maio de 2007)
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